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Shevchuk: sem intervenção de Leão XIV, trégua em Oleshky teria sido impossível
O líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, Sviatoslav Shevchuk, expressa gratidão a Leão XIV pelas ligações telefônicas a Putin e Zelensky e por ter sido a “voz dos que não têm voz” na Ucrânia. Fala sobre o “demônio” da guerra, que torna as pessoas “escravas”, as tragédias das famílias, os desafios do inverno, os jovens “órfãos sociais” e as ameaças da IA. Por fim, faz um apelo à solidariedade, para que não nos tornemos “vítimas de egoísmos nacionais que fazem renascer os nacionalismos.
Salvatore Cernuzio – Cidade do Vaticano
“Profético”. É com essa palavra que Sviatoslav Shevchuk, chefe da Igreja Greco-Católica Ucraniana, resume o gesto do Papa Leão XIV de telefonar para Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky em busca de uma trégua humanitária em Oleshky.
“Um gesto profético em meio a um deserto humanitário.” “Sem a voz e a intervenção direta do Santo Padre, a trégua não teria sido possível”, afirma o arcebispo maior de Kyiv-Halych, em entrevista aos meios de comunicação do Vaticano.
Há algumas semanas em Roma, longe de sua terra, “ferida” e “exausta” por quase cinco anos de guerra, Shevchuk encontrou-se com o Papa em outubro e, posteriormente, com representantes da Cúria Romana, para apresentar as decisões do Sínodo dos Bispos.
Também se encontrou com o patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu, no Angelicum. Além disso, entregou ao Hospital Pediátrico Bambino Gesù a mais alta condecoração da Igreja Greco-Católica Ucraniana, em reconhecimento à caridade demonstrada pelo hospital do Papa ao acolher e tratar milhares de crianças que fugiram da guerra.
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Shevchuk leva ao Papa “a oração da Ucrânia” e uma lista com nomes dos prisioneiros
O líder da Igreja greco-católica ucraniana foi recebido em audiência por Leão XIV no Palácio Apostólico vaticano. Gratidão pelas ligações telefônicas a Putin e Zelensky, pela ...Beatitude, no dia 23 de outubro, o senhor encontrou-se com Leão XIV pela quinta vez e agradeceu pelo apoio à Ucrânia, tanto da parte dele quanto da Santa Sé. Recentemente, também foi concluída uma missão do esmoleiro pontifício, dom Luis Marín de San Martín, nos territórios em guerra. O senhor sente, portanto, a proximidade do Papa com seu povo e sua Igreja?
Sentimo-nos “abraçados” pelo Santo Padre, por suas palavras e orações, também porque ele é uma voz que desperta as consciências da Europa e do mundo. A voz daqueles que não têm voz. Como, por exemplo, nossos irmãos de Oleshky, libertados graças à intervenção direta do Santo Padre. A viagem do esmoleiro pontifício, que encontrei aqui no Vaticano, foi um gesto muito concreto de caridade diante das necessidades urgentes do país.Vivemos um período muito delicado. O inverno se aproxima, as temperaturas estão cada vez mais baixas e a Rússia destrói sistematicamente todas as instalações essenciais de nossas cidades. Kyiv, por exemplo, nestes dias está às escuras. Falta muita eletricidade e aquecimento. Por isso, o Papa não apenas faz apelos pela Ucrânia e reza por nós, mas também nos abraça com gestos concretos.
O que o senhor pensou quando o Papa Leão, internado no Hospital Gemelli, telefonou ao presidente russo, Vladimir Putin, para pedir uma trégua humanitária em Oleshky?
Foi verdadeiramente profético. Foi uma voz que gritou em um deserto humanitário que se formou nos territórios ocupados. Nessa pequena cidade, antes do início da guerra, viviam 40 mil pessoas. Não sabemos o número exato de habitantes atualmente, mas, desde o início deste ano, a cidade estava cercada e sitiada. Todas as estradas foram minadas pelo Exército russo e já não era possível levar sequer alimentos. Durante o verão, as pessoas comeram todas as folhas verdes. Uma fome terrível... Todos sabíamos que, se nada fosse feito, ninguém sobreviveria ao inverno. Mas, para abrir esses corredores humanitários, era necessário interromper as operações militares. Por isso, o Santo Padre telefonou a Putin do hospital e, na segunda-feira, primeiro dia após receber alta, ligou para nosso presidente, Zelensky, pedindo essa trégua humanitária, que depois alcançou grande sucesso.
Fala-se dos méritos e das responsabilidades dos diferentes atores políticos. Podemos dizer, porém, que o Papa foi o primeiro a chamar a atenção pública para o drama que estava acontecendo em Oleshky?
Para todos nós, o único que agiu de maneira eficaz foi o Papa. Outros também quiseram falar sobre essa situação, mas, sem a intervenção direta do Santo Padre, a trégua não teria sido possível. E, justamente no outro dia, as 800 pessoas que saíram de Oleshky. Uma parte delas foi levada à Ucrânia, acolhidas também pela nossa Cáritas na fronteira com Belarus, agradeceram ao Papa por um ato de salvamento sem precedentes.
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Leão XIV: do gesto de humanidade de Oleshky a iniciativas concretas de paz
Ao final do Angelus, Leão XIV volta a dedicar um pensamento à cidade ucraniana, na região de Kherson, cujas condições trágicas da população ele havia denunciado, invocando — ...No Angelus do último domingo, Leão XIV falou de um “devido gesto humanitário” em Oleshky. Ao mesmo tempo, manifestou a esperança de que essa primeira trégua — a mais longa desde o início da invasão russa — possa abrir caminho para uma paz duradoura na Ucrânia. O senhor compartilha dessa esperança?
Essa ação demonstrou que, quando existe um mínimo de boa vontade, é possível salvar muitas vidas humanas. Temos a esperança de que talvez Oleshky entre para a história da Europa moderna como um gesto profético que anuncia uma paz maior. Infelizmente, porém, o presidente russo afirmou que não haverá mais tréguas desse tipo. Nosso presidente, por sua vez, declarou: “Está vendo? É possível”. É preciso estudar bem esse acontecimento e transformá-lo em um fundamento, em uma experiência já realizada que possa servir de referência para futuras negociações.
O senhor mencionou o número de 800 pessoas evacuadas de Oleshky. Quantas pessoas ainda permanecem lá? O senhor mantém contato com elas, mesmo que indiretamente?
Sim, mantemos contato por meio dos voluntários e dos pastores que estão naquela região. O que chama a atenção é que nem todos conseguiram retornar. E não sabemos onde muitos deles estão. Oitocentas pessoas em um total de 40.000 é um número muito pequeno. O que surpreende é que entre Oleshky e Kherson, na parte libertada da Ucrânia, existem apenas nove quilômetros. Ou seja... tudo o que era preciso era que um percurso fosse aberto e essas pessoas poderiam ter cruzado imediatamente a linha de frente em grande número. Em vez disso, essas pessoas foram transportadas de avião pela Rússia para a Belarus e, em seguida, de ônibus até a fronteira com a Ucrânia. Por que um percurso tão longo? Há muitas perguntas ainda sem resposta. Agora, vamos tentar entender quantas pessoas ainda estão lá, onde estão as outras e se as estradas estão abertas para a distribuição sistemática de alimentos.
Em vez disso, 800 pessoas foram transportadas por via aérea pelos russos até Belarus e, depois, levadas de ônibus até a fronteira com a Ucrânia. Por que fazer um trajeto tão longo?
Ainda há muitas perguntas sem resposta. Agora procuraremos compreender quantas pessoas continuam lá, onde estão as demais e se as estradas estão abertas para permitir o abastecimento sistemático de alimentos. Outra questão é o destino dos prisioneiros de guerra. O senhor entregou ao Papa uma lista de nomes. Quem são essas pessoas? Onde estão? O que espera por elas? Recordamos também que está em andamento uma iniciativa do cardeal Matteo Zuppi e, de modo geral, da Santa Sé, para a troca e o retorno dos prisioneiros para casa... Sempre que faço visitas pastorais, as pessoas se aproximam e compartilham suas tragédias comigo. Continuamente me entregam nomes. Eu recolho todos e digo: vou colocá-los nas mãos do Papa. E elas respondem: então estarão nas mãos de Deus! Quando encontro o Santo Padre, sempre levo listas de pessoas que sofrem, mas também de suas famílias. Ele não apenas as acolhe em suas mãos, mas também lhes dedica sua atenção. Não se limita a folhear as listas: ele as lê! É interessante porque o cardeal Zuppi nos contou que, nas prisões russas — visitadas durante sua viagem a Moscou, nota do editor —, procuram apagar os nomes das pessoas. Dizem-lhes: “Seus nomes já foram esquecidos, vocês não são ninguém”. Portanto, esse é um gesto que restitui às pessoas o seu nome, que afirma que elas não foram esquecidas. Quando essas listas são analisadas, às vezes nos pedem que confirmemos algumas informações, e começa um processo para descobrir onde essas pessoas estão ou para libertá-las. Justamente alguns dias depois da audiência com Leão XIV, 270 prisioneiros ucranianos voltaram para casa. Seria interessante verificar se entre eles estão os nomes que foram entregues às mãos do Papa.
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Shevchuk: Ucrânia, 35 anos de independência e o valor inestimável da liberdade
No dia em que o país celebra 35 anos de independência, o líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana fala do sofrimento infligido pela guerra à população e lança um novo premente ...O tema dos prisioneiros de guerra está ligado à questão da família. Neste momento, há milhares de famílias ucranianas separadas, mulheres obrigadas a criar os filhos sozinhas, que recebem notícias sobre maridos, filhos, irmãos e companheiros pela televisão ou sequer sabem qual será o destino deles. O senhor participou do encontro sobre Amoris laetitia. O que significa ser família na Ucrânia em guerra?
É uma tragédia. Atualmente, quase dois terços das famílias ucranianas vivem uma separação forçada. A família, entendida como comunhão de vida, está profundamente ferida na Ucrânia. A maioria dos maridos está na linha de frente; as mulheres e as crianças permanecem nas regiões mais seguras ou até mesmo fora do país. O que também nos faz sofrer profundamente é a trágica queda da natalidade. Lembro-me de que, durante o encontro, à minha mesa estava o arcebispo de Salzburgo, que falava de um crescimento da natalidade de 1,3% na Áustria. Na Ucrânia, o índice é de apenas 0,6%. Uma ferida demográfica... Obviamente, em contextos de guerra, não é fácil trazer novas crianças ao mundo. O medo impede que se consiga olhar para o futuro. Outra questão preocupante é que as novas modalidades de celebração do casamento civil na Ucrânia estão, de certa forma, enfraquecendo a própria instituição familiar. No ano passado, era possível registrar uma família junto às autoridades civis por meio de um aplicativo on-line, sem sequer precisar comparecer pessoalmente. Eu disse: se é possível casar-se pela internet, em breve também chegará o divórcio on-line. E foi exatamente o que aconteceu! O número de casamentos e o de divórcios são praticamente iguais. Por isso, é necessário repensar toda a pastoral familiar e acompanhar essas famílias.
E de que maneira vocês, como Igreja, estão fazendo isso?
Temos muitas iniciativas pastorais e também diversos movimentos nos quais as famílias se organizam espontaneamente para ajudar umas às outras. A Igreja encontra espaço nas paróquias, com a presença de um sacerdote. Evidentemente, existe uma grande necessidade de educar e preparar as famílias. Desde pequeno, uma criança precisa crescer desenvolvendo a capacidade de estabelecer relações interpessoais. Hoje, isso está faltando! Parecemos uma sociedade de órfãos! E muitos jovens se sentem abandonados. Lembro-me de um menino de 13 anos que, no ano passado, dizia: “Ninguém mais tem tempo para mim, somente a Igreja”. Mas hoje poderíamos dizer que a única que tem tempo para esses jovens, para esses “órfãos sociais”, é a inteligência artificial.
Portanto, na Ucrânia, a inteligência artificial não representa apenas uma ameaça no campo de batalha, mas também para a educação, a Igreja e a sociedade?
Certamente! A Ucrânia, assim como todo o mundo, vive um grande crescimento do interesse pela inteligência artificial. Todos os jovens conversam com esse tipo de aplicativo, pedem conselhos e informações. Portanto, isso se torna uma questão de humanidade. Historicamente, quem se aproximava da Igreja pedia a fé. Hoje, porém, pede à Igreja humanidade. Não ajuda humanitária, mas humanidade, como aquela que o Santo Padre pede em sua encíclica Magnifica humanitas. A humanidade é verdadeiramente magnífica.
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Rússia intensifica ataques contra a Ucrânia: hospitais, escolas e infraestrutura energética entre os alvos
Bombardeios deixam dezenas de mortos e feridos, atingem instalações médicas e provocam apagões em diversas regiões. Em Kharkiv, ataque a um hospital na terça-feira (3) deixou 73 ...E como pode ser magnífica uma humanidade que vive a desumanidade da guerra?
A humanidade é a única plataforma que nos une a todos. Quando fui visitar Bucha, logo após sua libertação, vi cadáveres nas ruas e valas comuns. Estava ali, à entrada, rezando por aquelas pessoas inocentes assassinadas, e pensei: aqui somos todos iguais. Católicos, ortodoxos, judeus, muçulmanos. A bala russa não pergunta a qual igreja você pertence, nem qual é a sua nacionalidade... Somos todos iguais, todos seres humanos. É muito perigoso, em contextos de guerra, acostumar-se às atrocidades e à morte. É terrível, porque o coração humano se transforma em uma pedra, insensível à dor. Por isso, procuramos verdadeiramente criar espaços de humanidade em meio à guerra, permanecer humanos em circunstâncias desumanas. Talvez esse seja o desafio pastoral mais importante de todos.
Beatitude, o senhor recolhe tantas histórias, tantas vozes, tantas imagens. Mas como o senhor está? Se tivesse de resumir seu estado de espírito atual em uma única palavra, qual seria?
Crente. Sem a fé em Deus, seria impossível sobreviver e, sobretudo, reencontrar o sentido da vida, do sofrimento e da esperança. Acreditar em Deus nos dá a luz necessária para compreender o sentido do nosso serviço e dos acontecimentos históricos. Quando acordo pela manhã e percebo que estou vivo, agradeço ao Senhor pelo novo dia que me concedeu: é mais uma oportunidade para fazer algo de bom. Vivemos como pessoas de fé, mas todos os dias olhamos a morte nos olhos. E, a partir dessa perspectiva, nossa vida e nossas escolhas são vistas de maneira diferente.
Quando e como esta guerra terminará?
Não sabemos, mas acreditamos que o Senhor é aquele que pode fazer a guerra terminar. Os homens sabem começar as guerras, mas depois se tornam escravos delas. As guerras são um demônio incontrolável. Aqueles que as iniciam pensam que elas são um instrumento para alcançar objetivos políticos, mas não sabem que se trata de um demônio que os torna escravos. Entra-se em um círculo vicioso, e libertar-se desse cativeiro só é possível por meio da intervenção de Deus. Temos certeza de que a guerra terminará, talvez muito antes do que possamos imaginar. Mas é preciso ter fé em Deus e esperança na construção da paz.
Há algum apelo final que gostaria de fazer diante da chegada do inverno e das dificuldades que a população ucraniana terá de enfrentar?
Antes de tudo, peço orações pela Ucrânia e, depois, solidariedade. Vemos crescer os egoísmos nacionais em toda parte, especialmente quando uma nação se prepara para as eleições. Não devemos nos tornar vítimas do nosso próprio egoísmo nacional, que faz renascer os nacionalismos! Por isso, pedimos solidariedade, porque a caridade cristã salva vidas, sobretudo na Ucrânia e, particularmente, neste inverno. A caridade pode levar luz a um período sombrio da humanidade.
